Publicado por: rockenbach | Março 12, 2008

Cloverfield

 

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(Cloverfield –  EUA – 2007 )

Direção de Matt Reeves, com Lizzy Caplan, Jessica Lucas, TJ Miller

Questão simples: busque na memória os filmes catástrofe mais marcantes dos últimos tempos. Qual o grande barato de Independence Day? Ver prédios famosos destruídos em explosões fantásticas – e principalmente ver a Casa Branca ir pelos ares. Qual o grande barato de O Dia Depois de Amanhã? A grande onda invadindo e destruindo Nova Iorque, as imagens apocalípticas de uma nova Era Glacial. Qual o grande – provavelmente único – barato de Godzilla? Ver o lagartão destruindo prédios na passagem por Nova Iorque, principalmente a cena em que ele surge pela primeira vez, à luz do dia. O que provocou tanto boca a boca em Cloverfield? O visual do monstro que ataca Nova Iorque – sempre Nova Iorque. Por que, quando o filme termina, fica uma sensação de algo interrompido, de algo que não desceu completamente? Porque os maiores atrativos de um filme catástrofe não ficam na imaginação, mas no visual. É diferente de um suspense como Tubarão, onde sentimos medo do que não podemos ver. Em Cloverfield, o monstro anuncia sua chegada, vemos a destruição, não existe suspense, a atração existe principalmente nas primeiras cenas em que algo estranho começa a acontecer, e apesar de se diluir aos poucos, a idéia de acompanhar um grupo de pessoas comuns durante a noite em que um monstro invade Nova Iorque é ótima, prende nossa atenção. Mas também não existe a complementação da necessidade visual de um filme catástrofe: não conseguimos distinguir muito bem o rastro de destruição do monstrengo. Ele mesmo é uma pálida visão de uma câmera amadora tremida.Pode parecer simplista e digno de um apreciador de blockbusters, mas como seria legal ver a cabeça da Estátua da Liberdade sendo arrancada como foi vermos a onda gigante cobrindo-a em “O Dia depois de Amanhã”. Cloverfield foi concebido para ser o fenômeno via internet. Cumpre o que promete a partir do seu ponto de vista, mas seu ponto de vista é insatisfatório para agradar aos pontos básicos de um filme catástrofe: mostre a platéia o que ela quer ver, e ela quer ver cenas chocantes de destruição. Em close, à luz do dia, sem meio-termos.

Cloverfield nasceu como cria dos tempos de divulgação tempo recorde via blogs, RSS e sites especializados em bisbilhotar produções do cinemão americano. Seu primeiro teaser trailer, que nem nome tinha, foi feito pra despertar esse bichinho de curiosidade que todos os dias gera um novo fenômeno do boca-a-boca – ou melhor, clique-a-clique – via internet. Deu certo, certíssimo. Traz o nome de JJ Abrams atrás, e isso já seria outro ponto positivo para os nerds de plantão tornarem o filme um fenômeno antes dele estrear – como com o horrível “Snakes on a Plane”.Na trama, os amigos de Rob fazem uma festa de despedida para ele, que está de partida para o Japão. Seu melhor amigo é encarregado de filmar tudo, quando Nova Iorque começa a ser atacada por algo, que logo se descobre ser uma estranha criatura de dezenas de metros de altura. A partir daí, são 75 minutos de correria, gritos e destruição pelo ponto de vista da câmera que filma tudo, mesmo nos momentos mais improváveis, “para que as pessoas possam saber como tudo aconteceu.” Não interessa se a vida do “cameraman” está em jogo, ele não a desliga. Não interesse se alguém querido acabou de morrer, ninguém vira pra ele no meio do caos, joga a câmera no chão e diz “desliga essa m…” como aconteceria na vida real. A narrativa é cortada pelo que seriam paradas amadorísticas na filmagem e a entrada de cenas previamente gravadas na mesma fita, entre Rob e sua amada, que origina uma busca insana por resgatá-la em meio ao caos. Essas entradas “estrategicamente” surgem em momentos chave, mas não funcionam por um simples motivo: o destino do casal não nos emociona tanto quando o destino do pseudo-casal formado por Hud, o cameraman, e sua musa, Marlena, que no entanto nem namorados são. Cloverfield, no todo, soa forçado. Um instrumento de marketing prodigioso que, em determinados momentos, atrai nossa atenção pelo instinto básico que temos de gostar de assistirmos tragédias e destruição. Mas, como estamos sentados na poltrona, confortáveis e longe do perigo, a adrenalina não nos tira toda a razão e os furos aparecem. Como o objetivo é fazer dinheiro, a ida de todos ao cinema está garantida, e os bolsos dos envolvidos, recheados.

Se há um público que vai se envolver com o longa é aquele público que, durante um bom tempo, vasculhou a internet atrás das pistas espertamente deixadas pela produção, que criou até sites de empresas falsas contendo dicas sobre o filme. É o mais puro conceito de cinema 2.0, onde histórias da televisão e do cinema saem dos limites impostos pela telona – ou pela telinha – e invadem outras mídias. Lost, do próprio Abrams, e Heroes são bons exemplos de séries para TV que já fazem isso. O diretor, Matt Reeves, já se disse tentado a dirigir uma continuação sob outro ponto de vista. O fato é que Cloverfield não parece ter um background que sustente tanta exploração sem se tornar meramente comercial e descartável. O que virá a seguir: a investigação de onde surgiu o monstro, para onde ele irá, de onde ele veio, suas dúvidas existenciais? O filme funciona maravilhosamente bem dentro desse cenário multimidiático criado para quem se aventurou a entrar nele antes do filme começar. Mas ele não deveria, como cinema, funcionar isoladamente também para aqueles que jamais se atreveram a buscar pistas sobre o filme antes de assisti-lo?

Cloverfield é cool enquanto dura, mas quando as luzes se acendem bate aquela dúvida: valeu a pena?


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