Publicado por: rockenbach | Maio 18, 2008

O Século da Luz ( novo blog )

Adeus ao WordPress e ao Por Falar em Cinema.

Estou movendo o conteúdo do site para um novo blog, com uma proposta ligeiramente diferente. O blog agora dará mais atenção à artigos sobre história do cinema, gêneros e personalidades. Também vou priorizar críticas sobre filmes mais antigos, e não apenas lançamentos. Você pode avaliar o filme também ao final de cada crítica e pretendo adicionar, em breve, um playlist com trilhas sonoras para quem quiser ouvir enquanto navega. Enfim, mais conteúdo e mais diversidade. Espero que visitem e gostem.

Novo blog

http://seculodaluz.blogspot.com/

Publicado por: rockenbach | Maio 16, 2008

Os Caçadores da Arca Perdida

( Raiders of the Lost Ark – EUA – 1981 )

Direção de Steven Spielberg, com Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, John Rhys-Davies, Denholm Elliot, Ronald Lacey

Vinte e sete anos se passaram desde que “Os Caçadores da Arca Perdida” estreou reunindo um misto de desconfiança e esperança. Em 1981, George Lucas colhia os frutos do sucesso avassalador de “O Império Contra-Ataca” nas bilheterias – e na crítica – do mundo inteiro, enquanto Steven Spielberg se recuperava do fracasso comercial de “1941 – Uma Guerra Muito Louca”. Quando estreou, “Caçadores…” mergulhou em um cinema menos ingênuo, menos leve e atormentado por uma profunda depressão coletiva, herança direta do cinema dos anos 70. Fazia 4 anos que o próprio Lucas havia iniciado uma nova onda com “Star Wars” mas de forma geral, ainda se respirava o clima amargo da década anterior nas telas. Obras pesadas e amargas como “Amargo Regresso”, “O Expresso da Meia Noite”, “O Franco Atirador” e “Touro Indomável” ainda davam as cartas nos anos anteriores em meio aos “blockbusters” ( o termo não existia ) que timidamente começavam a surgir nos cinemas. A desconfiança com as qualidades de Spielberg, pelo seu retumbante fracasso, mesclaram-se à falta de fé de grande parte dos estúdios como próprio Lucas, quando ele afirmou que aquele roteiro maluco, repleto de extras em diversos países, perseguições, cenários gigantescos e muita ação seria rodado com meros 20 milhões de dólares. Mesmo com o sucesso de produções anteriores, não seria de todo injusto dizer que a era dos grandes filmes-pipoca do cinema, se nasceu com Tubarão e Star Wars, foi consolidada com “Os Caçadores da Arca Perdida”. E aos que pensem que isso é demérito: longe disso. Se as lições de Spielberg se perderam, passa longe de ser culpa deles.


O Indiana Jones que surgiu em 1981 é, de certa forma, diferente daquele que reapareceu por duas oportunidades nas telas do cinema, em 1984 e 1989. Se nas seqüências Spielberg claramente deita-se em cima do carisma que o herói conquistou, em 1981 o espírito era outro. Ainda que o roteiro de Lawrence Kasdan consiga unir de forma admirável pequenas pitadas de humor, o foco é outro. O arqueólogo aventureiro de 1981 é mais soturno, mais sério, mais obstinado. Analisando friamente, o primeiro filme de uma das séries mais lucrativas de todos os tempos é o único que reúne os predicados para ser chamado de clássico num futuro próximo – se já não o é. Apresenta um herói que, como o próprio Spielberg explica, inspira-se no Fred Dobbs de Humphrey Bogart em “O Tesouro de Sierra Madre”. Ironicamente, ele que sempre quis dirigir um filme de 007 – daí vem a característica dos filmes começarem com uma cena de ação separada do resto da história – destruiu o estereótipo “James Bond” do herói invencível, sempre impecável, e trocou-o por um homem comum, sujeito às dores e escoriações que inevitavelmente surgem pelo caminho. Trocou o charme conquistador pela ironia e o cinismo. ( “Não são os anos querida, é a quilometragem.”) O “jeito” e a classe deram lugar à fórmula “vai do que jeito que der”. Deu certo. “Caçadores da Arca Perdida”, ao homenagear os seriados de aventura das matinés dos anos 30, criou ele próprio um estilo que viria a ser imitado, homenageado e plagiado posteriormente, sem nunca encontrar equivalentes.

Há alguns anos atrás, contar a história seria chover no molhado. Hoje não é. Se os filmes do arqueólogo são figurinha fácil na filmografia favorita de muita gente nascida nos anos 70 e começo dos anos 80, não são poucos os moleques nascidos na década de 90 que não travaram contato com a trilogia, absortos em filmes modernos recheados da mais alta tecnologia e efeitos visuais. Indiana Jones, arqueólogo e professor universitário que alterna seu tempo entre as aulas na universidade e viagens atrás de tesouros arqueológicos pelo mundo, é incumbido pelo governo dos Estados Unidos de encontrar a Arca da Aliança, onde Moisés teria guardado os Dez Mandamentos originais e, segundo a bíblia, seria fonte de imenso poder. O artefato repousa nas ruínas de uma antiga cidade egípcia descoberta pelos nazistas em 1936, no deserto próximo do Cairo. Esse plot simples resume a obra, A maneira como ele se desenvolve nas telas reúne, de forma admirável, ritmo impecável, uma montagem absorvente – que consegue unir a ação incessante ao desenvolvimento da história sem atropelar tanto um como outro – e uma pequena conjunção de fatores do tipo “no lugar certo e na hora certa”. Harrison Ford cria mais do que um personagem de uma carreira, mas um alter-ego indissociável, e tem em Paul Freeman e Ronald Lacey perfeitos no papel por vezes ingrato de oponentes, aqui desenvolvidos por Kasdan de uma forma que não chegou nem perto de ser feita nos demais filmes. Se em “O Templo da Perdição” e “A Última Cruzada” os vilões são caricatos, em “Caçadores…” eles são plausíveis, o que só engrandece qualquer filme. John Rhys-Davies interpreta um Sallah que é contraponto perfeito ao amigo Indiana ( em A Última Cruzada ele torna-se apoio cômico ) e Karen Allen faz de Marion a parceira perfeita – em nova comparação, a Kate Capshaw histérica de “Templo…” e a Alisson Doddy insossa de “Cruzada…” não chegam a seus pés. A fotografia de Douglas Slocombe combina com perfeição as sombras que ele próprio tanto gostava de acrescentar aos seus filmes com a dose exata de luz para recriar o clima nostálgico que Spielberg lhe pedira, meses antes, quando ainda escrevia o roteiro da aventura junto com Kasdan. Já a trilha sonora de Williams configura-se num de seus melhores trabalhos – e não falo apenas da marcha famosa, extremamente simples e icônica, mas de todo o trabalho que dá à busca pela Arca o background místico que complementa de forma perfeita a aventura.

Ao homenagear o cinema de aventura de antigamente, Spielberg opta pelo mínimo de efeitos – eles surgem claramente na seqüência final – e recria a década de 30 apenas com locações e maquetes, dando mais veracidade aos locais por onde Indiana passa. Abandona o humor nas seqüências de ação para criar, com o apanhado delas, o maior filme de aventuras de todos os tempos – a seqüência da perseguição no caminha é, definitivamente, uma das grandes senão “a grande” seqüência de aventura da história do cinema. Ao levar a sério uma história recheada de misticismo e tratá-la como uma homenagem, cria um marco moderno. Não é à toa que, para o quarto filme, Spielberg optou por recuperar vários elementos de “Caçadores…”, desde cenários a personagens. Indiana Jones tornou-se icônico levando-se a série. Não que “O Templo da Perdição” e “A Última Cruzada” sejam ruins. Longe disso, equivalem-se no quesito diversão e entretenimento. O que faltou a eles foi a aura de que poderiam ser filmes únicos, o que era uma possibilidade quando “Caçadores…” foi filmado. Talvez tenha faltado, também, um pouco do clima pouco festivo daquele início de anos 80. Nesse clima, ao levar seu herói a sério, Spielberg criou um ponto chave na história do cinema. Ignorar esse fato simplesmente por se tratar de uma aventura é fechar os olhos para uma das obras mais importantes do cinema moderno.

Publicado por: rockenbach | Maio 15, 2008

Band of Brothers

( Band of Brothers – EUA – 2001)

Com  Damian Lewis, Donnie Whalberg, Ron Livingston, Matthew Settle, Rick Warden

“Band of Brothers” é uma obra que, ironicamente, deve sua qualidade extraordinária ao fato de ter sido produzida para televisão. A ironia, no caso, está no fato de que é produto de televisão concebido com linguagem de cinema, mas se fosse feito para cinema, não alcançaria os atributos que alcançou. Seria impossível condensar as dez horas da minisérie em um longa para o cinema. E perderia seu sentido.
Em palavras simples, a minisérie produzida por Steven Spielberg e Tom Hanks, nascida a reboque da experiência de ambos em “O Resgate do Soldado Ryan” é simplesmente a melhor coisa que já foi feita para a televisão. Baseado no best-seller homônimo de Stephen Ambrose, sepultou de vez qualquer chance de se (re)ver qualquer filme sobre a segunda guerra mundial sem considerar ( qualquer um deles ) como fantasioso. Não pense que, por isso, obras como “A Ponte do rio Kwai”, “Uma Ponte Longe Demais”, “Inferno 17”, “Fugindo do Inferno” e “Os Doze Condenados”, só para citar alguns, tenham perdido alguns de seus atributos. Simplesmente, tornaram-se filmes AMBIENTADOS durante a Segunda Guerra mundial, mas que empalidecem no quesito ambientação. Desde “O Resgate do Soldado Ryan” essa já era uma constatação. “Band of Brothers” transformou-a em “definição”.

Dividido em 10 episódios, o controle de Spielberg sobre a produção pode ser resumida no fato de que todos os episódios tiveram um diretor diferente, mas foram operários. Isso se constata ao perceber que a homogeneidade entre eles é tanta que todos eles seguiram um padrão pré-definido. Band of Brothers pertence a Spielberg, ou pelo menos ao que ele convencionou mostrar como sendo o realismo nos campos da batalha da Europa na primeira metade da década de 40. ( Tom Hanks co-dirigiu os episódios 2 e 3 )
Narrando a história dos soldados da Companhia Easy, 506º Regimento da 101ª Divisão de Para-quedistas do exército americano ( criada para a guerra na Europa ), a minisérie une histórias e dramas pessoais ao ambiente em que esses soldados amadurecem de forma abrupta e crua. Do treinamento à tensão antes do embarque, das primeiras ações em solo europeu ao frio massacrante e, por fim, até a tomada do Ninho da Águia, a “casa de campo” de Hitler na Áustria no final da guerra. O mais surpreendente é que a história é real – os sobreviventes, todos personagens da minisérie, aparecem em depoimentos emocionantes antes de cada episódio. Não cabe sequer a afirmativa de que os fatos mostrados na tela pequena – e como seria fabuloso em uma tela grande numa sala escura – são frutos do típico costume do cinemão americano de enfeitar as narrativas. “Band of Brothers” não se rende a momentos de heroísmo ufanista – e nem mesmo alguns erros históricos relacionados a data empalidecem a obra. Ela mostra de forma crua o impacto da guerra ao levar, episódio a episódio, o público a acompanhar a mudança nos semblantes e nas ações dos soldados que, pouco a pouco, tornam-se tão familiares.

Não pense, também, que a produção rende-se ao chavão das miniséries de transformar uma história numa colcha de retalhes de dramas pessoais: elas apenas emolduram e casam perfeitamente com a narrativa histórica do que aconteceu na Europa. E faz isso com um realismo que é quase um tapa na cara a quem está acostumado a ver a guerra com romantismo: nem em “O Resgate do Soldado Ryan” os combates foram tão reais, secos, dolorosos. E é justamente por mostrar essa realidade sem se deixar levar por maniqueísmos emotivos – o que seria de se esperar de Spielberg – que a emoção que surge ao fim da jornada revela-se tão autêntica: ela é fruto da real identificação que o elenco homogêneo consegue passar de uma história tão real e dramática. Vale cada centavo investido na compra do Box completo, e cada minuto gasto na maratona exigida para acompanhar essa saga.

Publicado por: rockenbach | Maio 6, 2008

Grandes Suspenses – A Gramática do Medo

OK. Escolher melhores filmes, fazer listas e o diabo a quatro é tão difícil quando desnecessário, mas nada impede que se relembre alguns filmes que ajudaram a criar a gramática dos diversos gêneros em mais de 100 anos de cinema – e assim como fazer rir, deixar a platéia nervosa sem apelar para soluções fáceis é uma das mais difíceis lições que alguns mestres deixaram nessas 10 décadas, como mostram esses 10 filmes:
 

O MENSAGEIRO DO DIABO ( The Night of the Hunter, Charles Laughton, 55)

Após fugirem de um pastor enlouquecido a bordo de um simplório barco pelo Rio Ohio, as duas crianças passam a noite em um celeiro. Nos primeiros raios da manhã, o garoto John acorda e vislumbra no horizonte o nascer do sol. Vislumbra também a silhueta do pastor e seu chapéu, melancolicamente montado em um cavalo. Angustiado, pergunta para si mesmo;”Ele nunca dorme?” A frase de John reflete o pensamento do público. O primeiro e único filme dirigido pelo ator Laughton é simplesmente uma das maiores obras primas da história do cinema. No personagem do cruel pastor interpretado por Robert Mitchum, a personificação da demência absoluta. Na mulher forte e corajosa interpretada por Lilian Gish, sentada de armas em punho na varanda durante a noite, o modelo de coragem e persistência na proteção às crianças. Na canção religiosa entoada por ambos os personagens, que se encaram aguardando o momento do confronto, a única ligação, diferenciada pelo caráter religioso de cada um. Pode ter envelhecido na teatralidade das interpretações, mas é um clássico absoluto: os momentos geniais incluem a visão do cadáver no fundo rio ( cena tétrica que consegue ser bela ) ou o grito de ódio de Mitchum quando as crianças escapam por suas mãos no rio

TUBARÃO ( Jaws, Steven Spielberg, 1975)
Um grito de horror corta o silêncio da noite e ninguém ouve. Apenas o público, mas nem mesmo ele vê o que está acontecendo. Steven Spielberg arrastou multidões aos cinemas ao transpor para as telas o best-seller de Peter Benchley e instaurou uma regra muito usada por cineastas dos anos 50 e 60 quando tinham poucos recursos: o medo do que não se vê. O público só vê o tubarão depois de mais de uma hora do filme, mas até então a simples cena de alguém entrando na água já criava expectativa. A meia hora final, em contrapartida ao suspense inicial, é de tal movimentação que nos deixa presos em frente à tela. Pauline Kael chamou o filme de “deliciosa comédia assustadora”. Com momentos bem balançados de humor em meio ao show do diretor, é a trilha sonora de John Williams que dá o tom: seja de mistério, seja de aventura. Estava tudo no lugar para que o filme se tornasse um modelo…

JANELA INDISCRETA ( Rear Window, Alfred Hitchcok, 1954)
Hitchcok sempre fez questão de frisar que a chave para um bom suspense não está em surpreender a platéia, mas torná-la cúmplice – e nunca do protagonista, mas do antagonista. Com raras exceções, essa é a máxima de sua obra. Não era o susto, mas a sensação de inevitabilidade. Não surpreenda as pessoas da sala com uma bomba. Diga a elas que uma bomba vai explodir em breve – aí, sim, terá o suspense e a angústia. Associe a isso uma característica essencial a esse clássico: a inoperância, a incapacidade, e a sensação de não poder fazer nada – a cumplicidade forçada. É isso que o personagem de James Stewart, preso a uma cadeira de rodas após um acidente, sente nos momentos cruciais desta trama. Ele não pode se mexer muito – mas nós, do lado de cá. nos reviramos na poltrona, angustiados.

UM CORPO QUE CAI ( Vertigo, Alfred Hitchcok, 1958)
Nem os críticos que não receberam com tanto entusiasmo o filme ou mesmo Hitchcok talvez pudessem remotamente prever a importância que as gerações posteriores dariam a “Um Corpo que Cai”. Numa época em que o mestre do suspense fazia obras primas em série e numa filmografia tão variada de filmes inesquecíveis, este filme é hoje considerado como o melhor de todos eles. Na narrativa estão presentes metáfores e alusões que superam tudo o que o mestre já tinha feito. A obsessão, a atração, o medo, o tema de “as aparências enganam” levado às últimas consequências. Hitchcok pode não ter tido Grace Kelly, mas fez de Kim Novak uma das loiras loiras frias mais ambíguas do cinema, e promoveu o apogeu de seu ator preferido, James Stewart, num conto que ainda hoje intriga e traz novas interpretações. Destaque também para a trilha sonora perfeita de Bernard Herrmann, parceiro habitual do mestre inglês, e a abertura criada por Saul Bass, que foi homenageada na abertura de “Cassino” por Martin Scorsese.

OS PÁSSAROS ( The Birds, Alfred Hitchcok, 1963)
Existe uma aura que cerca este que foi a última do grande ciclo de obras-primas que Hitchcok iniciou nos anos 50 – aquele tipo de sentimento beirando o mistério e o medo do inexplicado. Nada de sobrenatural. Hitchcok era pouco apegado a isso e investigava a fundo o lado real e sombrio do ser humano. Aqui, desviou-se um pouco e propôs um enigma: o que aconteceu em Bodega Bay? O público pode, até hoje, encontrar suas próprias respostas, já que o diretor expõe apenas os fatos – e nisso, ele era mestre. Truffaut disse que o cinema foi inventado para que semelhante filme fosse feito. Vendo a cena em que os pássaros se juntam no brinquedo atrás de Tippi Hedren, pouco a pouco, silenciosamente, damos razão ao cineasta francês.

M, O VAMPIRO DE DUSSELDORF ( M, Fritz Lang, 1931)
Uma mãe chama, agoniada, pela filha. Já anoiteceu e vários crianças estão desaparecendo misteriosamente. Uma criança surge na tela enquanto o clamor da mãe recebe como resposta apenas o vazio do corredor. Um balão voa sozinho, e revela na parede a sombra de um psicopata. Lang queria que seu filme tivesse o título “O Assassino Está Entre Nós”. Percebendo uma alusão, o governo alemão vetou o título. M, de Murderer (assassino) bastou, então, para o cineasta. Ainda hoje, é uma prova do talento de seu realizador – tanto quanto as imagens que marcaram sua obra, o som tem papel fundamental no filme, e poucos tinham o domínio da técnica que ainda era motivo de experimentações no cinema mundial. Lang não só tinha como foi um dos primeiros a saber como usá-lo em proveito do conjunto da obra.

INTRIGA INTERNACIONAL ( North by Northwest, Alfred Hitchcok, 1955)
Existem duas maneiras de se analisar a filmografia de Alfred Hitchcok: habitualmente, seus filmes variavam sobre o cidadão comum envolvido em situações além de sua compreensão, ou tramas intrincadas com toques macabros – e um fino humor negro. Dentro desses dois tipos, haviam os filmes tipicamente intimistas, ou suspenses do indivíduo, e os thrillers que usavam o suspense como combustível para a aventura. Nesse último, “Intriga Internacional” é unanimemente seu maior filme – um road-movie aventuresco com um impecável Cary Grant tentando descobrir o que houve com sua vida pacata agora envolta em espiões internacionais, chantagem e perseguições. Hitchcok para ontem, hoje e sempre.

ENCURRALADO ( Duel, Steven Spielberg, 1971)
À beira da insanidade, o pacato motorista cria coragem e desafia seu opositor. Sai de seu carro e avança decidido rumo ao caminhão – monstro de diesel sem rosto – parado algumas dezenas de metros à frente. Quando ele se aproxima, ele acelera e sai, deixando-o com a fumaça nos olhos. A câmera sobe e mostra-o solitário, no meio do deserto, no meio da estrada, no meio de seu pesadelo. Em sua estréia, Spielberg entregou um filme perturbador, feito para a televisão, com qualidades suficientes para marcar o cinema. O vilão de seu filme não é o motorista do caminhão, cujo rosto nunca aparece. Ele toma as formas do próprio veículo – a falta de razão que perturba na perseguição incessante a um homem comum e cada vez mais próximo da loucura.

PSICOSE ( Psycho, Alfred Hitchcok, 1960)
A dualidade da personalidade humana e sua demência levados às últimas consequências. Este foi o maior êxito comercial de Hitchcok, e talvez seu mais famoso filme. Tem a mais famosa sequência de todos os seus filmes – cuja autoria ainda hoje é discutida e contestada. Marcou a filmografia de Anthony Perkins, que nunca mais se livrou do personagem Norman Bates – e parece ter adquirido um pouco da demência de tão irreal e ao mesmo tempo comum personagem. Tantos atributos não são em vão. Hitchcok continua um artista em grande forma – a cena inicial, com a tomada aérea chegando no quarto de Janeth Leigh, ou a sequência em que o carro é jogado no pântano – a infalibilidade do plano posta em dúvida por meros segundos, ainda assim de pura tensão – são apenas alguns exemplos de sua maestria. A trilha de Bernard Herrman é também um dos pontos altos de sua carreira, e foi homenageado na abertura de “Sinais”, de Shyamalan.

Leia mais sobre Psicose no Cine Rosebud,
http://cinerosebud.blogspot.com/2007/06/psicose.html

O SILÊNCIO DOS INOCENTES (The Silence of the Lambs, Johnathan Demme, 1991)
Um raro momento no cinema onde todos os astros parecem confluir para um determinado ponto. Nesse caso, eles confluíram para o diretor Johnathan Demme, para Jodie Foster e para Anthony Hopkins. Juntos, eles fizeram um apavorante conto moderno que trata dos pesadelos da alma humana mostrando que, ao contrário do que explora o imaginário popular, não é preciso nenhuma criatura anormal para nos provocar o medo. O maior inimigo, a maior besta, é exatamente o homem. Na pele de Anthony Hopkins, essa besta assume contornos assustadores apenas pelo seu olhar. Hannibal Lecter é um gênio, mas não prescinde de seu lado incomum de psiquiatria: devorar seus pacientes. Curiosamente, é ele o único elo que liga a jovem agente Clarice Starling ao psicopata Buffalo Bill. No meio de personagens de tamanha demência, o que se poderia esperar se não o lado assustador do ser humano?

Publicado por: rockenbach | Maio 6, 2008

Grandes Filmes Policiais – A Gramática da Bala

Depois do suspense, uma relação – muito pessoal – de filmes que ajudaram a definir um sub-gênero, o policial – noir incluído. 

O PODEROSO CHEFÃO
(The Godfather, Francis F. Coppola, 1972)
Amor e ódio. Lealdade e traição. Demonstrações de afeto e violentos assassinatos. Este é o submundo retratado por um jovem Francis Ford Coppola em 1972 e que se tornou na opinião da crítica o melhor filme americano dos anos 70 e um dos melhores de toda a história do cinema. Baseado no best-seller de Mario Puzo, é um retrato da sociedade americana e particularmente da máfia siciliana instalada nos Estados Unidos. Um oscarizado e soberbo Marlon Brando dá vida a Don Vito Corleone, o rei de um frágil castelo Tudor apoiado no dinheiro e no medo. Dono da mais temida e importante das cinco famílias mafiosas de Nova York, ele se recusa a entrar para o narcotráfico e origina uma sangrenta guerra de famílias que iria mudar o destino dos Corleone e da própria máfia americana. Mudaria também a história do cinema. Quem visse o filme na época não imaginaria que o rapaz franzino que interpreta Michael Corleone se tornaria um dos maiores ícones do cinema americano na segunda metade do século. Seu nome? Al Pacino. Com coadjuvantes como Robert Duvall, Diane Keaton, James Caan, a trilha sonora de Carmine Coppola ( antológica ) e momentos de genial inspiração, Coppola estava predestinado a fazer mais que um filme: um momento na história do cinema

O TERCEIRO HOMEM
(The Third Man, Carol Reed, 1949)
Muito se tem falado sobre “O Terceiro Homem” desde que foi lançado. Inegável é seu status de clássico inquestionável, e o filme já foi colocado em diversas listas dos melhores de todos os tempos – recentemente, eleito o maior filme inflês da história do cinema. Joseph Cotten vai a Viena procurar um velho amigo e descobre que ele morreu em circunstâncias pouco claras, envolvido com negócios escusos do submundo. Como em todo bom noir, no entanto, nada é como parece. Pauline Kael disse, sobre o personagem de Cotten, que ele foi concebido pelo escritor Graham Greene como “o típico americano raso, incompetente, mas bem intencionado”. É esse americano sem nada de incomum que está sozinho tentando entender as circunstâncias que o cercam. O jogo de sombras na noite de Viena, a trilha sonora de cítara do gênio Anton Karas, as interpretações magistrais de Orson Welles, Trevor Howard e do próprio Cotten. “O Terceiro Homem” é uma confluência da fatores que podem ser exemplificados em algumas cenas antológicas: a conversa de Wellese Cotten na roda gigante, a fuga pelos túneis de esgotos de Viena em seu clímax, ou seu final melancólico, que pontua com chave de ouro também o sutil romance que faz parte da trama. Clássico.

À BEIRA DO ABISMO
( The Big Sleep, Howard Hawks, 1946 )

Imaginem, sentados à uma mesma mesa, conversando, os nomes de Howard Hawks, Humphrey Bogart, Raymond Chandler e William Faulkner. Que ocasião memorável pode ter sido. O romance “O Sono Eterno” ( título original do filme ) de Chandler rendeu a mais complexa e intrigante de todas as adaptações literárias do cinema, onde o próprio autor revelou ter ficado confuso em certos momentos. De fato, o cinismo, o humor sarcástico e a violência se mesclam à dubialidade de forma magistral num dos mais clássicos representantes do noir americano – aqui, com a marca da perfeição de Hawks, que valoriza ao extremo o potencial do elenco fantástico de que dispõe, enquanto que Bogart compõe, com o detetive Phillipe Marlowe, mais um nome marcante de sua filmografia de personagens tão eternos quanto seu intérprete.

O FALCÃO MALTÊS
( The Maltese Falcon, John Huston, 1941 )

Uma pequena estátua incrustada depedras preciosas, o Falcão Maltês, é alvo da disputa de diversas pessoas. Entre elas, o detetive Sam Spade e sua misteriosa ebela cliente. O máximo em filmes noir marcou a estréia na direção de um ex-roteirista que se tornaria um dos maiores diretores de todos os tempos. Marcou também a carreira de um dos maiores atores do cinema, Humphrey Bogart, o homem certo para encarnar o herói durão, insensível e solitário envolto nas sombras de um chapéu e de um longo capote. Personagens ambíguos não faltam nesta adaptação do clássico da literatura de Dashiel Hammet, um primor de roteiro policial. “O Falcão Maltês” tem sua importância por todos esses fatores: Huston, Bogart, Hammet, a história, o clima… o noir, que nascia para uma brilhante carreira dentro do gênero, e fora dele também.

CHINATOWN
( Chinatown, Roman Polansky, 1974)

O filme noir em seus derradeiros momentos – e em cores, sim, esqueça idéias pre-concebidas - numa época em que as perseguições de carros e tiroteios desenfreados chamavam mais a atenção do que o policial solitário e a mulher fatal. Roman Polanski filmou o derradeiro exemplar do gênero e construiu um clássico. Jack Nicholson é o detetive particular que é contratado por uma misteriosa mulher e se envolve com uma sórdida história de corrupção, especulação imobiliária com bens da prefeitura de Chicago e mortes. Polanski coloca seu anti-herói na solidão, um agente tentando sozinho descobrir um mistério que nem mesmo o filme revela ao certo em todos os seus aspectos. Essa conclusão fica para o público. Como um arrogante detetive de segunda linha, Nicholson dá um show. Como um baixinho invocado que quase arranca o nariz de Nicholson com seu canivete, o diretor Polanski em uma ponta dá as caras do clima desta intrincada trama.  Era, definitivamente, o noir dando adeus e se transmutando em algo a mais, somente aqui.

UMA RAJADA DE BALAS
( Bonnie & Clyde, Arthur Penn, 1967 )

Bonnie Parker era uma garçonete numa cidadezinha perdida no interior dos Estados Unidos. Quando o ex-presidiário Clyde Barrow surgiu diante dela, os Estados Unidos tremeram. Juntos, o casal fora-da-lei assaltou dezenas de bancos, matou pessoas e empreendeu uma fuga lendária pelas estradas do país de Tio Sam. Essa história real foi contada de forma brilhante por Arthur Penn em seu melhor filme. Um jovem Warren Beaty e uma ainda esplendorosa Faye Dunaway, no auge da beleza,dão vida ao casal de assaltantes fora da lei e o filme de Penn nos mostra a história sob seus pontos de vista. Bonnie e Clyde são como duas crianças que começaram a brincar e se deram conta, mais tarde, que a brincadeira havia perdido a graça. Tarde demais para parar a verdadeira caçada humana que se formou atrás deles. Estelle Parsons ganhou o Oscar de coadjuvante por seus gritos irritantes, e a fotografia também foi premiada. Com brilhante reconstituição de época, um “quê” de nostalgia da sociedade americana da metade do século ( num retrato de época que funciona como melodrama social ) o filme de Penn oscila entre o dramático e o violento. Entre o calmo e o ensandecido. É, na verdade, o maior exemplo dos anti-heróis que a cultura americana forma de tempos em tempos e mitifica, não importando o que eles são, apenas seus atos.

MISSISSIPI EM CHAMAS
(Mississipi Burning, 1988 )

O racismo no sul dos Estados Unidos é uma mácula que continua viva e forte até hoje. É registrado desde as primeiras décadas do cinema, com “O Nascimento de uma Nação”, até filmes mais recentes, como “Tempo de Matar” e “Fantasmas do Passado”. Coube a Alan Parker transpor para as telas o mais forte registro dessa intolerância ao contar a história real do assassinato de 3 ativistas dos direitos humanos nos anos 60 – um negro e dois brancos – e da investigação conduzida por dois agentes do FBI: o novato e idealista Willem Dafoe e o experiente e durão Gene Hackman. A química dos dois atores centrais é perfeita, contrapondo o ideal de justiça pela lei de Dafoe com os métodos ilegais – e os únicos eficientes – pregados por Hackman.

OS INTOCÁVEIS
( The Untouchables, Brian DePalma, 1987 )

“Se eles te apontam uma faca, você aponta um revólver. Se mandam um dos seus pro hospital, você manda um deles para o necrotério. É assim que se age.” O veterano policial irlandês Malone ensina a um jovem e idealista agente do tesouro chamado Elliot Ness como agir para acabar com a máfia em Chicago no final da década de 20, em plena vigência da Lei Seca, quando gângsters enriqueciam com a violência e o contrabando de bebidas, em particular Alphonse Capone, alvo da caçada impiedosa movida por Ness e seu grupo de policiais incorruptíveis. Uma luta solitária contra um sistema policial todo comprado por Al Capone. Brian DePalma fez um clássico moderno em 87. Não bastasse o elenco de astros, que inclui um recém alçado para a fama Kevin Costner, Sean Connery, Robert DeNiro e Andy Garcia, a trilha sonora de Ennio Morricone casa perfeitamente com as imagens de DePalma, quenuma brilhante reconstituição de época enaltece a arquitetura da escola de Chicago de Sullivan e Wright em meio a momentos de tensão e suspense. A cena final da escadaria é um marco moderno, homenageando a cena criada por Eisenstein no clássico “Encouraçado Potemkim” de 1928. Um brilhante exercício de montagem e direção. Dentre todas as cenas do magistral elenco, sobressai a cena da morte de Malone. Sean Connery tem talvez o melhor momento de sua carreira e mostra porque ganhou o Oscar de ator coadjuvante pelo papel.

A MARCA DA MALDADE
(Touch of Evil, Orson Welles, 1958 )

“A Marca da Maldade” motivou uma apaixonada carta de Orson Welles a respeito do que ele esperava que fosse seu filme, mutilado pelo estúdio e montado á sua revelia em sua época. Encontrada mais tarde, foi usada para que o filme fosse restaurado e relançado em 2000 da maneira que seu criador imaginou. É uma das obras-primas de sua carreira – quem sabe do próprio cinema. Charlton Heston foge de seu estereótipo e interpreta um policial mexicano em lua-de-mel na fronteira com os Estados Unidos. Um crime acaba colocando-o frente à frente ao mundo de corrupção e falsidades apoiado pelo desprexível xerife da cidade(Welles em pessoa). Os momentos inesquecíveis desse clássico são muitos, mas nenhum supera a fantástica sequência inicial – uma aula de cinema.

LOS ANGELES – CIDADE PROIBIDA
(LA Confidential, Curtis Hanson, 1996 )

“Esta é a cidade dos anjos, filho. E você não tem asas para voar.” Numa cidade que se orgulha de ter a melhor força policial do país em meio a astros e estrelas do cinema, a Los Angeles dos anos 50 tem por trás dos letreiros brilhantes algo de podre. Prostituas que se parecem com estrelas de cinema atuando num esquema de chantagem que alcança altos escalões políticos e da própria polícia. Uma história de traição, assassinatos e corrupção que leva homens tão diferentes como os policiais Jack Vincennes, Ed Wxley e Bud White a se cruzarem num mesmo objetivo. Não existem, na verdade, heróis nos moldes clássicos em “LA Confidential”. Todos têm seus erros a confessar… se quiserem. Um brilhante filme noir nos tempos modernos, quando se achava que ninguém mais conseguiria resgatar os grandes filmes do gênero daquela época. Um roteiro magistral auxiliado por um elenco idem e um diretor inspirado. Como diz o próprio slogan do filme, “Nem tudo é o que parece na Cidade dos Anjos”. Mergulhe nesta viagem e tenha uma das maiores experiências que o cinema pode proporcionar nos últimos anos

Publicado por: rockenbach | Maio 5, 2008

FILMES QUE DEFINIRAM SEUS TEMPOS

Definitivamente sou péssimo para fazer listas. A constatação veio de uma brincadeira em um fórum sobre cinema. A pergunta: se você tivesse que escolher 20 filmes que definiram os anos 90, quais seriam? Não os melhores, esqueça a análise apurada, deixe a crítica de lado, mas aqueles que mais te marcaram e mais definiram aqueles dez anos para você. Tive imensa dificuldade. Me descobri um admirador de carteirinha do cinema americano, maioria absoluta dos filmes que escolhi. Expandi a brincadeira para outras décadas, para colocar aqui. Foi terrível. É como o pai com uma dúzia de filhos que só pode levar 6 ao jogo de futebol. Pior foi com a década que definiu minha paixão pelo cinema, os anos 80. Decidi que seria iinútil tentar escolher apenas 20. Dobrei a lista, e é a única em que fiz isso. Vou colocar esses escolhidos década a década aqui, até porque, no ritmo que estou por aqui, é mais fácil lembrar da nostalgia desses filmes do que conseguir tempo para ver os que quero ver ou escrever sobre…A brincadeira deu vontade de rever muitos deles e botar no papel…

40 FILMES PARA OS ANOS 80

Primeira parte  
 

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Publicado por: rockenbach | Março 31, 2008

O Orfanato

 

(The Orphanage -  Mexico/Espanha – 2007 )

Direção de Juan Antonio Bayona, com Belen Rueda, Fernando Cayo, Roger Princep, Montserrat Carulla.
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O cinema vive de “ondas” de tempos em tempos. No cinema de terror não é diferente.  Vivemos durante anos com o horror sobrevivendo de personagens com apelos na cultura pop, como Jason Vorhees e Freddy Krueger. Nos anos 90, “Pânico” iniciou uma série de assassinos de jovens que originou até mesmo pérolas como algo chamado “Eu ainda sei o que vocês Fizeram no Verão Passado.” Mais recentemente, o sucesso de “O Chamado” trouxe uma série de filmes baseados no estilo oriental de terror, que até assustou no início, mas se tornou caricato, repetitivo.

Guillermo del Toro foi um dos responsáveis pela mais assustadora expoente dos filmes de terror dos últimos anos com um filme que muitos desconhecem, “A Espinha do Diabo”. O mundo conheceu com ele a definição do terror latino, onde é imprescindível o papel da criança em toda a simbologia de um bom filme de terror. E, sempre, usando como tema o sobrenatural, o mundo que nós não vemos, espíritos, fantasmas… O tema já foi recuperado de forma notável em “Os Outros” e talvez esteja aí o grande problema dessa “safra”: depois que se alcança o topo a tendência é cair. Menos mal que o mais recente representante desta leva não faz feio. “O Orfanato”, produzido por Del Toro, pode não ter a competência de “Os Outros”, mas dá um banho em tudo que orientais e americanos têm tentado fazer nos últimos anos.

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